Assim será


poema de Harold Pinter

Células do câncer

Elas esqueceram de morrer
E vão matando ao viver.

Eu e meu tumor cordialmente em luta.
Tomara o fim não seja a morte dupla.

Eu preciso ver o meu tumor morrer
Um tumor que esquece de morrer
Mas não de tramar o meu morrer.

Mas eu lembro como morrer
Embora só tenha testemunhas mortas.
Mas eu lembro do que elas falaram
Dos tumores que as fariam

Cegas e surdas como eram
Antes da doença nascer
Para fazer o tumor viver.

As células negras vão murchar e morrer
Ou vão cantar com alegria e cair na folia.
Elas procriam tão quietas noite e dia
Que nunca se sabe o que vai acontecer.

 Escrito por Vítor às 15h03
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Trinados do viúvo

JOÃO GILBERTO NOLL

Hoje vou ao cemitério. No caminho compro umas flores. Rezar no cemitério é engraçado. Tudo é tão como tem de ser que a gente nem reza. É como se eu já tivesse nascido viúvo. Depois tomo uma cerveja. Tem um canarinho no boteco. O trinado. Vou ao banheiro. Não sei se aquelas rodelas de limão nos mictórios servem para atenuar o cheiro do ambiente. Acho que são rodelas inúteis, afogadas pela espuma da bexiga. Hoje é Dia dos Mortos, daqueles que já ignoram cerveja e feriados. À noite vou ver na TV multidões em cemitérios. O vizinho está no manicômio. Diz que é Deus anestesiado.


Banho na claridade

JOÃO GILBERTO NOLL

À noite ele saia pelas ruas sem algo exato a fazer. Ao acordar, não se lembrava de nada. Precisava de um banho, tirar o cheiro de pele, disfarçar a ausência de sua história mais recente e voltar a ser uma pessoa entre as outras, deixando-se ver na claridade, respondendo, perguntando. "Onde estarei depois de morto?" A pergunta arrebentou no núcleo de sua demência. Comprou seu próprio caixão. Quando abriram o esquife, à beira da cova, não precisou dos olhos para ver a filha grávida, olhando-o pela última vez. A filha distendeu as pálpebras como se tentasse fixar as feições dele para sempre.


 Escrito por Vítor às 14h54
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O ex- cineclubista JOÃO GILBERTO NOLL

O ex-cineclubista
JOÃO GILBERTO NOLL
Aquele homem meio estrábico, ostentando um mau humor maior do que realmente poderia dedicar a quem lhe cruzasse o caminho e que agora entrava no cinema, numa segunda-feira à tarde, para assistir a um filme nem tão esperado, a não ser entre pingados amantes de cinematografias de cantões os mais exóticos, aquele homem, sim, sentou-se na sala de espera e chorou, simplesmente isso: chorou. Vieram lhe trazer um copo d'água logo afastado, alguém sentou-se ao lado e lhe perguntou se não passava bem, mas ele nada disse, rosnou, passou as narinas pela manga, levantou-se num ímpeto e assistiu ao melhor filme em muitos meses, só isso. Ao sair do cinema, chovia. Ficou sob a marquise, à espera da estiagem. Tão absorto no filme que se esqueceu de si. E não soube mais voltar.

 Escrito por Vítor às 12h54
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Estou retornando o blog

 Escrito por Vítor às 16h36
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Um minuto de palavras

Posso falar um minuto com você?
Sim.
O seu poema me tocou.
São apenas palavras.
Palavras são poderosas.
Não essas.
Sou eu que julgo nesse caso.
Também eu, que as escrevi.
Acaso não foram sinceras?
Foram.
Então têm seu valor!
Todas têm. Afinal, é com elas que movemos a vida.
A nossa, pelo menos.
A dos outros também.
É.
Principalmente a dos outros.
E nem percebemos.
Não num poema.
Não?
Num poema a vida escapa pelos dedos.
Assim, mansamente?
Sempre em desespero.
Foi como escreveu esse poema?
Foi.
Então deve ter doído.
Ainda está doendo.
Devia ser um prazer.
É uma hemorragia.
E como se estanca?
Se alguém o lê. A leitura é uma ferida.
Feridas novas pra esquecermos as antigas.
Não há outra maneira. O risco é que justifica a aposta.
Mesmo se vencemos?
Nunca vencemos. Somos colecionadores de perdas.
Se perdemos com alguém já é um consolo.
É o que diz o poema.
Agora vou querer um poema todos os dias.
Só posso dar esse. Amanhã, não sei.
Nunca sabemos.
Tentarei.
É um risco.
Como as palavras.
Basta usar as certas.
O mal é que quase sempre usamos as erradas.
Ou as que não dizem o que devíamos dizer.
É comum usarmos outras pra dizer as óbvias que o nosso coração espera.
Melhor seria dizer as óbvias.
Como "eu te amo", por exemplo.
Sim.
Essas às vezes não dizem nada.
Ou não dizem o que de fato se sente.
Não.
Por isso gostei do seu poema.
Me alegra que o tenha apreciado.
Há palavras nele ocupando o lugar de outras, mais simples.
Aquelas que eu ainda não tenho coragem de dizer.
Chegará o tempo de dizê-las.
Ou não chegará.
É o que veremos.
Veremos.
Já usamos aqui muitas palavras pra não dizer nada.
Só sabemos empregá-las desse jeito.
É o que me basta.
Não me parece de muita utilidade o que digo.
Sou eu quem julgo, já disse.
Espero não aborrecê-la com esse assunto.
Você não me aborrece.
Outro homem saberia usar aqui as palavras certas.
Fosse você outro homem, seria outra mulher que estaria à sua frente.
Agora é você quem fez poesia pra mim.
Não sabia que nascia assim, a poesia.
Assim como?
Do que a gente fala antes que ela venha.
Ela vem mais facilmente quando silenciamos.
Então por que a fazemos?
Pra lembrar.
Lembrar o quê?
Que estamos vivos.
Seria melhor esquecer.
Impossível. Aí estão as palavras pra nos lembrar.


JOÃO ANZANELLO CARRASCOZA é autor das coletâneas de contos "O vaso Azul", "Duas tardes" e "Dias raros", entre outras.


 Escrito por Vítor às 16h36
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Nietzsche, um pensamento contra a moral e o niilismo por REGINA SCHÖPKE

Há quem diga que Nietzsche não é um filósofo no sentido estrito do termo. Talvez um poeta, um artista... Ele próprio, ao olhar para trás e vislumbrar a história da filosofia, não se sentia parte dela. Por isso, muitas vezes preferiu chamar a si mesmo de "pensador" ou de "psicólogo". Era uma forma de marcar sua diferença com relação àqueles que construíram, sobre os alicerces da metafísica socrático-platônica, o Império da Filosofia. De fato, para Nietzsche, não ter seu nome ligado ao monumental edifício do conhecimento filosófico não era nenhuma desonra, uma vez que sua intenção era mesmo derrubá-lo ou, no mínimo, reconstruí-lo sobre bases mais sólidas e poderosas (que se entenda, por isso, uma filosofia livre do niilismo e do peso dos valores ascéticos, ou seja, uma filosofia que pudesse recuperar o "sentido da terra" e afirmar a existência tal como ela é). É claro que consideramos uma tolice chamar Nietzsche simplesmente de poeta, ainda que ele o seja num segundo plano. A beleza de seus escritos é inegável, mas não se trata aqui de uma questão estética. São as idéias de Nietzsche que fazem dele um filósofo, e um dos maiores. Quem argumenta que ele não chegou a produzir um sistema, ou que não empreendeu um estudo metódico e ordenado, tem uma visão muito limitada do que significa pensar ou mesmo filosofar. Nietzsche (que sempre desconfiou das naturezas metódicas e sistemáticas, por considerá-las pouco honestas com a vida) fez mais do que construir sistemas. Ele pôs à prova a própria razão, fazendo ruir de um modo implacável os pressupostos mais arraigados do próprio saber filosófico, tais como a sua fé inabalável no conhecimento racional ou a idéia do pensador como um observador imparcial e absolutamente comprometido com a verdade. Porém, Nietzsche foi ainda mais longe: ele pôs em xeque algo que jamais alguém ousara tocar até aquele momento: a moral, o valor das idéias de bem e de mal, em suma, o valor dos próprios valores. E se ele critica as filosofias de Sócrates e Platão é porque elas se sustentam na idéia moral de "Bem", tomado como um "part pris", como um dado "a priori". Para Nietzsche, era preciso trazer à tona o que subjaz na moral humana, o que se oculta como um segredo pérfido e doentio nas regiões mais profundas, mais abissais, onde a luz e o ar puro jamais chegam. Em outros termos, o lado obscuro, impróprio e vergonhoso de uma moral que termina por opor-se à natureza e à própria vida. O que até então foi dignificado e chamado de "verdadeiro" e "superior" esconde, segundo Nietzsche, um monstruoso sentimento de desprezo e ódio pelo mundo e pela existência. É preciso ser um "ser subterrâneo", um ser que "perfura, que escava, que solapa" - como ele próprio se define em seu livro Aurora (lançado, em uma bela edição e nova tradução, pela Companhia das Letras, 320 págs., R$ 39) -, pois só assim é possível chegar ao fundo da moral e revelar o seu lado inconfessável e bem pouco nobre. Mas, é claro que Nietzsche não convida ninguém a seguir o seu exemplo. A tarefa é dura e a solidão imensa. E, como ele próprio mede a força de um espírito pelo "quanto" de verdade ele pode suportar, ousamos dizer que já é preciso ser um "super-homem", um "espírito livre", para percorrer esse labirinto repleto de perigosas armadilhas e condenações. Afinal, como afirma Nietzsche, diante da moral não se admite imparcialidade (assim reza a boa reputação). "Na presença da moral, como diante de toda autoridade, não se deve pensar, menos ainda falar: aí - se obedece." Com Aurora, de fato, começa a campanha de Nietzsche contra a moral ou, mais precisamente, contra o niilismo que serve de alicerce às idéias de bem, mal, Deus, alma, verdade absoluta, etc... Assim, seguindo o estilo aforístico, iniciado com o Humano Demasiado Humano, Nietzsche pretende desnudar, tirar o véu da chamada moral ocidental. E se Aurora marca o início de sua cruzada contra o que até então era considerado elevado e distinto no homem, a Genealogia da Moral irá aprofundar ainda mais esse tema, traçando o perfil da moral que se tornou vitoriosa no Ocidente: a moral escrava, a moral do fraco (que, em hipótese nenhuma, está vinculada à posição social ou ao nascimento, já que forte e fraco, para Nietzsche, dizem respeito à potência do ser, ao seu poder de afirmar ou negar a existência). Se Nietzsche não dissocia a moral da religião e empreende uma luta contra o espírito religioso é porque sabe que, longe de afirmar a vida, esse espírito se opõe a ela de um modo traiçoeiro e perverso, pois fingindo amá-la ele deseja vingar-se dela, uma vez que a considera essencialmente injusta e má. Eis, portanto, o que se esconde por trás dos preconceitos morais, bem como das belas idéias de "paraíso perfeito" ou "mundo das formas puras e incorruptíveis": um ódio profundo pela nossa própria existência, um horror do real. Eis o que Nietzsche chama de niilismo. E o niilismo é a doença do homem, é o "não" mais profundo a tudo o que é força, vitalidade e coragem na natureza. "Há tantas auroras que não brilharam ainda", eis a bela epígrafe deste livro. Por que Nietzsche a escolheu? Não sabemos... Talvez porque ele acreditasse na vitória de uma vontade poderosa, que pudesse suplantar o niilismo e afirmar definitivamente a vida. Se isso é para poucos, não importa. Será de tantos quantos puderem se opor à morte, pois o niilismo é a própria morte que se instala no seio da vida. Está mais morto do que vivo quem despreza a sua única chance de viver e desperdiça seu tempo com fantasmagorias. A pergunta que fazemos então é a seguinte: quando o homem aprenderá a olhar para a vida sem moralizá-la, sem desejá-la diferente do que ela é? A vida pode ser dura (ninguém disse que é fácil viver), mas também é bela e exuberante, como cada aurora, como cada alvorecer, pois cada instante vivido, embora breve e fugaz, é também eterno, já que foi e será para sempre apenas ele mesmo: uma centelha de luz na vasta escuridão do universo.

 Escrito por Vítor às 18h25
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Os foragidos - Texto do Fernando Bonassi na Folha de São Paulo

Eu sempre soube lutar. E sabia que eles viriam, mais dia, menos dia. Esperava por isso. Páginas e páginas de prontuários exibidos com descaso. Uma biografia de maldades arremessadas no ventilador das repartições acusadas de preguiça. Delegados acossados por governadores assustados. Promotores arrepiados. Juizes indignados. Parentes e amigos lavando as mãos dos compromissos acordados. Todos aqueles retratos rabiscados de ouvir dizer, pretos no branco, grudados nas portas das escolas e dos supermercados. A população insone. A produção parada. O comércio fechado. Eu sou o culpado. Cada um vive como pode, por mais que queira. Vieram com a fome de sempre, mas agora têm certeza de encontrar. E gritam enquanto se espalham. A excitação estampada nas camisas empapadas. O volume das pistolas crescendo-lhe entre as pernas. Salivam diante do serviço prestado. As sirenes pipocando pelos postes. Uma atenção redobrada. Uma tensão liberada. Um espetáculo. Um escândalo. Todos temos reputações a zelar. Todos roemos a mesma corda. Cachorros treinados cheiram meus trapos. Coletes blindados ajustados nos estômagos estufados. Os celulares clonados mal conseguem dar conta dos recados passados em código. Um plano é traçado. Um batalhão é posicionado. Um megafone é ligado. Ouço chamarem meu nome, depois o mastigam com raiva. Eu sempre soube lutar, de modo que me preparo. Alongo os músculos. Cerro os punhos. Afio os nervos e confiro a carga. Estão por toda parte. Rastejam por cima do telhado, esvaem-se por canos enterrados, escorregam pelas paredes cheios de manhas e ventosas. Há um tremor embaixo de mim. Dentro de mim. Trocam sinais difíceis de entender pelos inocentes que procuram abrigo entre árvores e automóveis abatidos, abandonando pratos e aperitivos intocados. O trânsito se complica. Dezenas de quilômetros de congestionamento, atrasando ambulâncias e lotações. Helicópteros vasculham com os fachos azulados de suas câmeras ávidas de desejo e anunciantes. Repórteres varejadores seguem o roteiro previamente acertado. Estou cercado. Na vida real. Ao vivo. Todos os meus caminhos foram bloqueados por essa reação em cadeia. Eu sempre soube lutar. Não sou de rezar. Corro atribulado. Pulo uma janela, ao acaso do chão que houver por baixo. Quando chego a ele, algo errado acontece com meu calcanhar. Não tenho tempo pra detalhes anatômicos. Aproveito o calor da hora pra esquecer mais essa dor. A cidade me dando as costas com muros cobertos de musgo, cercas elétricas e cacos de vidro. Também não há novidade nisso. Nem mais felicidade nas portas abertas. Quando estou pra me atirar por uma saída qualquer é um vulto que aparece adiante. Chega muito perto com aquela coisa apontada. Uma confiança desgraçada. O suficiente pra que eu lance meu corpo, minhas pernas estiradas num giro maluco. Um só golpe e arranco-lhe o ferro das mãos. Bate na parede soltando faísca. Fica inútil lá longe. Nem olho pro que não me interessa mais. Rápido, faço com ele o que ele queria fazer de mim. Tudo é uma questão de oportunidade, e eu sempre soube lutar. Volto à fuga disparada. Os gatos e os ratos se separam. Os bêbados escondem as garrafas. Chefes de família imploram por suas filhas perdidas enquanto avanço por becos e vielas escuras. A favela fica muda. Ouço terços sendo ralados. As preces vazando pelas venezianas trancadas às porradas. Deus está fechado nesses quartos de despejo. Assim eu vejo. E escorrego pelo lixo acumulado, onde me sinto à vontade nos movimentos. Salto por carcaças abandonadas e ilusões perdidas, móveis a crediário, eletrodomésticos enguiçados e televisores sintonizados. Ainda pretendo consertar os dentes e comprar uma casa com suíte pra minha mãe. A mãe de meus filhos fará plástica nos seios caídos. Meus filhos crescidos haverão de ter orgulho do que tanto lhes envergonha no momento. Eu sempre soube lutar e sei separar as coisas. Por trás de um armazém, são dois os que me espreitam desenganados. A surpresa os faz hesitar um segundo precioso. Reajo, que eu sempre reagi muito bem nessas circunstâncias. Esses outros seguem o pioneiro deles, praquele lugar onde queriam me mandar. Um inferno frio de cadáveres estirados onde os pecados são contados e medidos. Já não vão me levar sozinho. Às tontas, engano atiradores de elite e viaturas desencontradas. Armas pesadas disparadas por nada, latarias amassadas nas esquinas vigiadas. Um prejuízo enorme aos cofres públicos escancarados. Não posso saber o quanto. Só quero saber de ir embora. O quanto antes. Abaixo a cabeça e sigo pra onde aponta o meu nariz escorrendo. Eu também tenho faro. Sinto o perfume do mato onde hei de me perder dos encostos no meu encalço. Quando estou a poucos passos, tem aquele último. Também tem uma arma na mão. Por um instante sei que posso alcançá-la. Depois ele percebe minha intenção. E sorri como um anjo de guarda. Eu sempre soube lutar, mas de novo é o segundo precioso. Agora contra mim. O clarão se espalha do revólver, a flor de pólvora incendiada. Um suspiro. Uma pedrada. Minhas pernas que falham, um calor meloso irradiando da testa, uma fraqueza generalizada. Cansado de tudo, me deixo cair ao sabor dos acontecimentos... relaxo definitivamente... demais, talvez... agora mesmo eu tento me erguer... não me ajudam... eu sempre soube lutar, mas eles preferem ficar olhando... acendendo velas... fingindo que eu nem existo mais.

 Escrito por Vítor às 15h19
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Poema de Fernando Pessoa

"De quem é o olhar / Que espreita por meus olhos?/ Quando penso que vejo,/ Quem continua vendo / Enquanto estou pensando?/ Por que caminhos seguem, Não os meus tristes passos, / Mas a realidade / De eu ter passos comigo? Às vezes, na penumbra / Do meu quarto, quando eu / Para mim próprio mesmo Em alma mal existo, / Toma um outro sentido / Em mim o Universo — / E uma nódoa esbatida / De eu ser consciente sobre / Minha idéia das coisas." Fernando Pessoa

 Escrito por Vítor às 22h12
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- Qualquer menino parece, hoje, um experimentado e perverso anão de 47 anos. Nelson Rodrigues

 Escrito por Vítor às 22h47
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- Nunca a mulher foi menos amada do que em nossos dias. Nelson Rodrigues

 Escrito por Vítor às 22h45
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Pra que servem os muros - FERNANDO BONASSI

FERNANDO BONASSI Pra que servem os muros Os muros estão voltando à moda! Estão sendo fotografados e filmados, aparecem nos discursos das modelos, nos detalhes dos brinquedos, nos enredos das novelas e nos planos de governo. Não podemos nos esquecer de que os muros foram criados para a segregação dos coitados. Miseráveis que não devem sair de um lado. Desgraçados que não podem entrar do outro. Quanto aos nobres preocupados, também ficam isolados em seus palácios de muros por todos os lados, nessas ilhas de conforto que a segurança das estacas perfiladas, dos funcionários contratados e da falta de horizontes provê aos homens de visão desconfiados. Consta que o primeiro muro era praticamente invisível e cercava o pomar do Jardim do Éden, separando as convicções das vontades. Quando este muro caiu, porque um homem nu de preconceitos o enfrentou, choveram pragas do inferno como raios do céu, pra que ele ficasse quietinho. Assim ficamos todos, diante da evidência interditada dos muros! Um muro é uma ordem, um silêncio prolongado... Muros em surdina servem aos que gostam de sentar em cima, mas muros também são duros, são desejos obscuros que precisam de vazão. Muros de lamentos que precisam de perdão. O muro é uma tradição! Pois se até certos judeus heterodoxos, outrora cercados em holocaustos, constroem um muro sem vergonha do passado! Quanto aos árabes explosivos, restam os muros arrastados pelos tanques apressados e as barricadas dos moleques siderados. Todos afirmam agir em nome de Deus, por isso os parques sagrados estão cercados e os santos pedem proteção. São muros enraizados, muros mumificados... Há muros que se lembrar e muros que se esquecer. Muros são piadas sem graça, são vontade de poder. Porque muros são erguidos e enterrados por cima dos corpos que tombaram nas travessias, muros são heresias! Os berlinenses luteranos, por exemplo, nunca estiveram protegidos de verdade enquanto um muro rasgava as avenidas da cidade. São muros ideológicos, racionais, absurdos. São muros de cegos, muros de surdos. Muros que são limites pichados, obras de artistas drogados. Muros ornados de arame farpado e vendidos como suvenir. Muros eletrificados, que são um choque, que fazem rir! Muros são pedras no sapato dos poetas. Como tirá-las do caminho? Muros separando a fome da vontade de comer. Muros com mirantes. Muros com minaretes. Muros a escolher. São armados em traição os muros do coração. Cercas são puladas com um pouco de tesão. São os muros do compromisso e os percalços da excitação. Há inúmeros muros de ressentimento fermentando no lixo da história, mas muros são recicláveis, basta limpar bem os tijolinhos arrancados aos pedaços. Muros que os terremotos não tomam conhecimento. Muros ao sabor dos elementos. Água, areia e cimento. Os muros não têm semente, ainda que se multipliquem pelos terrenos. O muro é um veneno. Muros são planejados, são descritos, são orçados. Muros artesanais, muros pré-fabricados. Muros são clonados, repetidos, inventados. Muros sem motivo, paredões salpicados de tiros. Janelas são revolucionárias, palcos de polêmicas incendiárias! Já os muros nos viram a cara; são diques, são tiques, são vícios conservadores. Há muros que se justificam em nome da virtude. Há muros de ferro e muros de estrume. Mais ou menos obscuros e malcheirosos, todos são democraticamente muros escandalosos. Muros podem surgir num instante. Muros de livros incompreensíveis nos espaços das estantes. Muros vistos do céu distante, muros impressionantes. São gigantescas as muralhas da China, tantas vezes invadidas! Muros são genéricos, muros são específicos. Muros são artefatos bélicos, lógicos, jurídicos. Muros nas residências, nos tribunais e nos presídios. Um muro é uma vingança, uma sede, uma parede. Um muro é um arco, um marco, um defeito. Um muro é um conceito. Muros são concretos: muros entre ricos e pobres, entre homens e mulheres, entre ignorantes e doutores, entre foices e martelos, entre o dia e a noite, entre caridade e esmola, entre escola e sabedoria, centro e periferia, forma e conteúdo. Muros escalados por atletas, por estetas, por malandros! Muros entre a bondade e a piedade, coletivo e identidade, a piedade e a humilhação, razão e loucura, o pensamento e a imaginação, a ação e o inconsciente, imperialismo e globalização, a casca e a fruta, o salmão e a truta, oriente e ocidente, presente e passado, imigrantes e emergentes, idiotas e insolentes, a roupa e a pele, o cozido e o assado, a carne e o osso, o colar e o pescoço, a mão e a luva, o vinho e a uva, o dentro e o fora, o feio e o belo, a flor e o mel, Iago e Otelo, Caim e Abel... Muros são limites, são percalços, são fetiches. Muros são urros. Muros são murros, são muito burros! Todos os muros deviam envergonhar, pois, se os muros pudessem ensinar alguma coisa, desistiriam-se.

 Escrito por Vítor às 15h26
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Desigualdade

As 225 pessoas mais ricas do mundo hoje têm mais dinheiro do que 2,5 bilhões de pessoas pobres.

 Escrito por Vítor às 04h46
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Muro do Gueto

Agora, e esse muro que querem construir na Rocinha, será que querem construir guetos, é isso? Já não basta os muros e os carros blindados da Barra da Tijuca com seus Pitboys. Realmente só resta avacalhar mesmo.

 Escrito por Vítor às 23h26
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Tsai Ming-liang

Tsai Ming-liang: "Eu acho que o juízo de valor de hoje está mudando o nosso pensamento. O valor material, o valor das coisas, está nos fazendo mudar a idéia do que seria de valor pra nós, de que tipo de valor temos que ter na vida. Por exemplo, hoje em dia, o mundo cultiva o valor da internacionalidade; tudo deve ser multinacional. E parece que todos têm de ser iguais uns aos outros. Isso faz com que, se você for diferente, você seja considerado anormal. E, na verdade, esse é um buraco pra fazer você cair. É pra que ditadores ou empresários façam você seguir seus passos, pois assim é mais fácil de controlar. E é mais fácil de ganhar dinheiro com esse tipo de pensamento."

 Escrito por Vítor às 23h06
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DESEMPREGO

CONTARDO CALLIGARIS Desemprego Capa da Folha, na quinta passada: em fevereiro, na região metropolitana de São Paulo, o índice de desemprego subiu mais um pouco. No domingo, o caderno Empregos assinalava que 56 semanas é o tempo médio para que um desempregado encontre trabalho. Haja ânimo. As porcentagens variam segundo o índice escolhido, mas, de qualquer forma, é provável que todos os paulistanos conheçam um amigo ou um parente que, a cada manhã, olha no espelho e se pergunta por que fazer a barba ou por que escovar o cabelo. Estou lendo um livro recente, que trata dos efeitos das adversidades externas sobre nossa saúde mental, "Adversity, Stress and Psychopathology" (Adversidade, Estresse e Psicopatologia), de Bruce Dohrenwend (editor). A perda do emprego está na lista dos piores fatores adversos, com as catástrofes naturais, a morte de uma pessoa amada, o estupro, a doença grave, a separação ou o divórcio. Nenhuma novidade nisso: é fácil entender que a perda do emprego seja fonte de angústia, de depressão e mesmo, às vezes, de "comportamentos anti-sociais": alcoolismo, violência familiar e condutas criminosas. Compreendemos imediatamente, por exemplo, o desespero do provedor (ou da provedora) que não consegue preencher as expectativas de seus dependentes. "Se a família não pode mais contar comigo, perco minha razão de ser." Mas há algo mais, que talvez faça do desemprego a adversidade mais danosa para nossa saúde mental. Preste atenção: no balcão de um boteco, como na mesa de um jantar, se seus vizinhos forem desconhecidos, a primeira pergunta não será "quem é você?", mas "o que você faz na vida?". Se eles tiverem uma intenção alegre, talvez tentem primeiro descobrir seu estado civil. Fora isso, o interesse pela sua identidade se apresentará como interesse por seu papel produtivo. Ora, tanto você como seu vizinho (ou vizinha) viverão essa conversa inicial como um momento, de alguma forma, falso. Pois todos sabemos que somos mais do que nosso ofício: temos histórias, amores, esperanças, interesses, paixões e crenças que, de fato, expressariam muito melhor quem somos. Ao trocarmos cartões de visita, mentimos por omissão. Identifico-me como executivo, bancária, escritor, médica, mecânico, mas quem sou eu? A poeta da meia-noite? O sedutor das salas de bate-papo na internet? O piadista do bar da esquina? O pai preocupado com a doença do filho? A mulher que, a caminho do escritório, se agacha e conversa com o sem-teto que vive na calçada? O homem que cantarola Dorival Caymmi tomando banho? Não é o caso de sermos nostálgicos. Num passado não muito remoto, cada um era definido por sua proveniência, e as perguntas iniciais diziam: quem foram seus pais e antepassados? Onde você nasceu? Quais são as dívidas que você herdou? Prefiro os dias de hoje, em que são nossas próprias façanhas que nos definem. É uma escolha que deveria nos deixar mais livres, mas acontece que a praticamos de um jeito estranho: junto com os laços que nos prendiam a nossas origens e ao passado, nossa vida concreta também é silenciada na descrição de nossa identidade. E nos transformamos em sujeitos abstratos, resumidos por nossa função na produção e na circulação de mercadorias e serviços. Conseqüência: o desemprego nos ameaça com uma perda radical de identidade. E não adianta observar que, afinal, nos sobra o resto, ou seja, toda a complexidade de nosso ser. Tipo: "Perdi meu emprego, mas ainda sou pai amoroso, amante, esposo, amigo, leitor de Saramago e corintiano ou palmeirense". Não adianta porque, em regra, já renunciamos há tempos a sermos representados por nossa vida concreta. Não é por acaso que as mulheres lidam com o desemprego melhor que os homens, como mostra uma pesquisa recente de Lucia Artazcoz e outros, "Unemployment and Mental Health: Understanding the Interactions between Gender, Family Roles and Social Class" (Desemprego e Saúde Mental: Para Compreender as Interações entre Gênero, Papéis Familiares e Classe Social), "American Journal of Public Health", 2004, 94. Duas constatações de Artazcoz: 1) o impacto do desemprego é maior nos homens casados do que nos celibatários ("Se não traz o feijão, você ainda é o pai?"), 2) as mulheres casadas com filhos, ao perderem o emprego, sofrem menos que os homens e menos que as celibatárias. Explicação: para as mulheres, o exercício da maternidade ainda constitui uma identidade possível. "O que você faz na vida?" "Tomo conta de meus filhos." Para os homens, essa resposta não basta. Enfim, espera-se que a economia crie empregos. Mas os poetas e os saltimbancos também têm uma tarefa crucial: são eles que podem, aos poucos, convencer a gente de que é nossa vida concreta que nos define, não nossa função produtiva. P.S.: Um sonho recorrente propõe que reaprendamos a colocar raízes, ou seja, a definir nossa identidade por uma parcela de terra que nos sustentaria, que seria nossa e à qual pertenceríamos. Em 1932, Henry Ford, consternado pela crise que assolava os EUA, aderiu ao movimento da volta à terra. Declamou: "A terra! É lá que estão nossas raízes. Nenhum seguro-desemprego pode se comparar à aliança entre um homem e seu pedaço de terra". Curioso precursor de João Pedro Stedile, ele imaginava (e nisso tinha razão) que, se cada um mantivesse uma relação íntima com seu lote de terra, o desemprego poderia ser um aperto econômico, mas não uma queda no vazio. Pena, já era tarde demais para isso. ccalligari@uol.com.br

 Escrito por Vítor às 04h39
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